quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

A estranha história de Maruge Button


Boas. Outro dia falei aqui de uns filmes que vi, inclusive aquele de estranho título the strange blá blá Benjamin Button, com o Brad Pitt. Bem, o filme trata de uma temática cara a todos nós, mais de uma vez eu ouvi, e você também deve ter ouvido, como seria bom se, ao invés de irmos ficando mais velhos fóssemos remoçando, assim teríamos mais para o fim da vida tempo e juventude para fazer tudo o que não tivemos oportunidade de fazer antes, por falta de tempo, e que não poderemos fazer na velhice, por falta do vigor da juventude. Bem, o filme mostra a vida de Benjamim Button que, nasceu velho e foi rejuvenescendo. Meu assunto hoje não é bem esse filme mas sim um outro filme, e uma outra vida, a vida de um Keniano chamado Kimani Ng'ang'a Maruge, uma espécie de Benjamim Button da vida real.
Maruge nasceu em 1920, e como a maioria dos africanos tem uma vida marcada por lutas e tragédias. Ajudou a expulsar os ingleses em 1950, foi torturado, perdeu filhos, esposa mas seguiu vivendo. Em 2003 Maruge ficou sabendo que o governo do Kenya resolveu tornar a educação básica, de primeira a quarta série, gratuita. Assim ele, com 83 anos, pensou que seu velho sonho poderia finalmente se realizar, e resolveu se matricular na escola. Bem, a vida não é fácil assim, a diretora disse que ele não poderia se matricular, era uma escola para crianças que tinham cadernos, livros, uniformes, ele já tinha passado um pouco da idade. Maruge voltou no dia seguinte com um saco de pano com dois cadernos velhos e três lápis. Ele também tinha cortado a sua única calça para se adequar ao padrão de uniforme da escola. A diretora, diante da obstinação do aluno, nada pode fazer, e deixou Maruge assistir as aulas.
Sim, as crianças tiveram medo, chamavam-no de velho doido, sim, os pais se revoltaram e não queriam que aquele velho "insano e demente" desvirtuasse seus filhos, mas Maruge não se abalou. Ele acabou chamando a atenção do mundo, e as autoridades locais não puderam impedi-lo de ir as aulas. Mas é claro que o governo, como sempre fazem os governos, tentou dificultar e punir, e como não podiam tocar em Maruge transferiram a diretora que o aceitou na escola para uma outra localidade, bem distante de sua tribo. Maruge, que é além de aluno um criador de ovelhas, vendou duas de suas ovelhas para ir até Nairóbi e pedir a volta da diretora. Mais uma vez com a atenção de Ongs e redes de televisão, as autoridades não puderam negar.
Maruge se adaptou bem, as crianças se habituram com ele e até o elegeram representante dos alunos da escola. Ele já está na sexta série. Maruge entrou para o livro dos recordes como o estudante mais velho do mundo, se bem que quando a gente vê a foto dele assim, sentado em sua escola e aprendendo, a gente tem a impressão de que só o corpo é mesmo de um ancião, a mente é de um jovem, talvez ele seja mesmo o verdadeiro Benjamim Button, e assim, remoçado e obstinado, ele nos faz ver que nunca devemos perder uma oportunidade de aprender. E se você quiser assistir a um breve documentário (12 min.) em inglês sobre a vida de Maruge é só clicar aqui

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Vou atacar de jurista

Boas. Agora de férias tenho mais tempo para acompanhar o que anda acontecendo aí por terras tupiniquins. Até Big brother eu vi hoje (bem, deixa pra lá). Empolgante mesmo tá o caso do italiano para quem o Tarso Genro concedeu asilo. Eu, claro, vou dar um pitaco. Bom para isso fui ao âmago da mente para buscar uma ou outra coisa que ainda lembro dos tempos que estudei direito - quando fazia história na Unicamp cheguei a cometer esa loucura por um ano na PUC Campinas. Também vou tentar lembrar de uma ou outra coisa que eu li quando era um aspirante ao Rio Branco (Bem, pra quem não sabe, houve um tempo em que, por acidente, passei nas primeiras fases do Rio Branco e aí tive de estudar direito internacional para tentar passar na última fase, mas como acidentes não acontecem várias vezes, não rolou. Acho que ajudou também o fato de eu ter ido fazer as provas de bermuda, mas putz, tava quente!) Bem, como todo esse meu "conhecimento jurídico" é totalmente superficial, conto com a ajuda dos vários doutores bacharéis que acompanham este singelo blog para me corrigir nos eventuais erros.
Pelo que andei lendo, argumentos jurídicos existem tanto para um lado quanto para o outro. E acho que o fato de o procurador geral ter uma opinião e juristas como Dalmo D'allari terem outra, é um pouco reflexo disso. Mas quando eu estudava direito...
Bem, se eu bem me lembro, e realmente não sei se me lembro bem, há um conceito de "espírito da lei" que eu acho todo rábula tem de saber. A questão é saber o porquê da lei. Well, vamos lá, ao que tudo indica a lei define que o poder executivo tem a última palavra na questão do asilo. razão? Simples, esse treco de asilo quase sempre afeta a política externa, e cabe ao executivo zelar pelo bom andamento da política externa. A intenção da lei é que determinadas decisões jurídicas não interfiram nas relações externas do país, que são de extrema importância.
Dito isto, vamos analisar o caso. Primeiro: A Itália é uma democracia? É. Era uma democracia constitucional ao tempo dos acontecidos? Era. Então quem somos nós para interferirmos nas questões jurídicas internas de uma democracia soberana?
Segundo: essa decisão é sábia do ponto de vista das relações externas do país? Não. Só vai dar dor de cabeça. Então porque raios o Tarso Genro e o governo Lula fizeram essa, com o perdão da palavra, "cagada"?
Simples, como já disse em outro post, tanto o governo do Lula, como o do FHC que o precedeu, tratam a coisa pública como privada, em toda e extensão semântica do termo. Eles tratam a política pública como coisa comezinha, de comadres, estão mais preocupados com as relações pessoais, de padrinhagem, camaradagem. Não são estadistas. Estadista é o cara que faz exatamente o contrário, coloca os interesses do país em primeiro lugar. O Brasil não teve muitos não, mas vou citar dois que viveram na mesma época, Vargas e Prestes. É claro que o Vargas era um ditador, coisa e tal, mas era um estadista. Prestes, mesmo sem nunca ter o poder nas mãos, era um estadista (para muitos isso é uma contradição em termos, mas para mim não), por isso mesmo se aliou em determinado momento ao próprio Vargas, que antes havia mandado sua esposa para morrer nas mãos de Hitler. Os nossos amigos supracitados não passam nem perto disso. Por isso Tarso Genro concedeu o asilo, muito provavelmente para satisfazer alguma relação de camaradagem.
O problema é que o Ministro da Justiça, ao ceder a espiritos de camaragem em detrimento do espírito público, fere o próprio espírito da lei, de fazer com que as relações externas do país não sejam prejudicadas por decisões jurídicas. Nesse caso o governo interveio foi para prejudicar mesmo. E o Brasil? Ah, o brasil que se dane!

PS: OK, a minha teoria pode ter vários furos, muitos jurídicos, mas só não me venham com aquela papagaiada de orgulho nacional, de soberania, de que a França fez isso e a Itália aquilo. Novamente, a Itália era e é uma democracia, com uma constituição, não é nem era um Estado de exceção. Nesse caso quem afrontou e avacalhou com a soberania dos outros fomos nós...

respondendo:


Sarah: e aí gostou do conto? O filme é bem legal, mas acho que o Slumdog millionaire é melhor. Besos!

Amenidades

Boas. Então, férias é tempo de assistir filmes certos? Pois bem, foi o que eu andei fazendo nesses dias de inverno. Vi vários. Com os títulos mais estranhos. Tinha Slumdog millionaire, MILK, Revolutionary road, Frost/Nixon e um que tinha até estanho no título, the strange case of Benjamim Button, ou algo parecido. Já que agora é férias no Brasil, vou sugerir dois dos acima citados, Slumdog Millionaire, (juro, é muito mais engraçado quando você conhece os indianos, mas mesmo se você não conhecer nenhum vai gostar muito do filme) e do Benjamim Button, que é baseado em um conto do Fitzgerald (que você pode ler aqui). Um é pra rir e chorar, o outro é para chorar e rir. Bons filmes. Mas o melhor mesmo que eu vi foi um documentário sobre a eleição para representante de sala de uma escola em Wuang, na China (estive lá, chato né?) É uma turma de 3a série, mas é muito engraçado ver como os pais enxergam naquilo uma chance para que o filho se destaque e possa, quem sabe, ter um futuro melhor. É que com aquela população as crianças na China tem de se destacar cedo. O título do filme é please, vote on me, e faz parte de um projeto chamado why democracy. Você pode ter uma idéia do filme na página do projeto. Só que como eu sou muito sensível, quase chorei quando os meninos começaram a xingar uma candidata a Xeong, e a menininha começou a chorar no meio do discurso dela. O bicho cruel é o ser humano, desde pequeninho né?
Bem, já que hoje é dia de falar de amenidades, falemos dos nossos turistas bulmerangues. Tá engraçado ler essas notícias no jornal de brasileiro que bate na Espanha e volta. Mas a culpa é do governo, nesse caso do Itamaraty. Porque se os caras estão voltando, e realmente não tem NADA de errado e eles eram apenas turistas querendo conhecer a terra do ingenioso fidalgo Don Quixote de La Mancha, então o Itamaraty tinha que chamar esses espanhóis as turras e fazer uma retaliação, tipo o Lula ir, em cadeia nacional, dizer que "nunca (mais) na história desse país se comerá Paella" - hum, não, essa não - "nunca mais na história desse país pagaremos dívidas do Santander." É, essa é boa! Agora se não for o caso, o governo deveria ir logo dizendo "calma galera, era tudo neguinho ilegal querendo vender Kebab nas ruas de Madrid." Porque nesse caso meu amigo, ou é uma coisa ou é outra! Mas eu tenho uma teoria. É que eu vi um dos derpotados segurando o passaporte, aquele verdinho. Aquele verdinho não pode galera. Não tem código de barras, sistema usado por todos os aeroportos mais ou menos decentes do mundo. O governo precisa trocar logo o passaporte do resto da moçada... Eu, que tenho a maior pinta de terrorista paquistanês misturado com afegão nunca fui barrado em aeroporto nenhum do mundo! E quando fiz escala em Nova York outro dia (putz do chique) a negona ainda me desejou um welcome do fundo coração! Tudo bem que em Varsóvia quando eu estava voltando para o Japão, o detector de metais apitou e me fizeram a revista com aquele detector portátil. Mas eu nem me importei, afinal era uma morenaça de olhos azuis, vestida em um uniforme do exército... enfim, seja como for, se for a Espanha e tudo der errado grite em bom portunhol "yo quiero mi abogado, yo soy uno cidadón respectabele, Carajos!"


Sarah: eu fazer inveja a você, que outro dia tava fazendo pic nic no Central Park...

Kobelus. Boa. Vejo que o judô serviu para alguma coisa. Só um errinho, não tem Heit, sete é sichi, ou nana.

Lara: Acho que tá. Ou não! Tenho de perguntar..

Pri: Pois é, se eu já estou assim aos 25, imagina quando tiver uns 30 (heheheeheh) E sim, postarei as fotos das Filipinas! Como diria um ex presidente Duela a quien duela!

domingo, 25 de janeiro de 2009

Férias sem fim


Boas. Andei sumido, sei. Mas eram os afazares. Semana que passou passaram-se também minhas últimas aulas, de maneira que agora entre em modo de férias de inverno. A diferença é que dessas férias eu não volt mais, ou seja, minhas aulas no Japão se acabaram. Sexta eu tive de fazer uma apresentação na aula de japonês, e pela primeira vez na minha vida dei uma aula em japonês. Foi uma aula sobre Hiroshima. Vinte minutinhos só. Mas enfim, para quem chegou aqui sem saber como contar até dez em japonês, já foi um grande avanço. Fazendo o balanço geral depois de um ano e meio de aulas no Japão acho que aprendi que há tantas coisas a se aprender e que aprender é a experiência humana mais fantástica que existe. Acho que é isso. Em um treinamento de professores, aprendi a ser aluno. Um mal aluno, como sempre fui, mas enfim, sempre aprendendo...
Para comemorar teve um jantar na sexta na casa de uma dos professora. Aprendi que, mesmo depois de um ano e meio, não estou adaptado para longos jantares no Japão. Ficar por duas horas sentado nesse tatame com as pernas dobradas quase me fez não levantar mais. Para completar, no caminho de volta fazia um frio chato, menos 3, 4, com aquele vento que bate na orelha e parece entrar na alma, mas enfim, sobrevivi. Agora é aproveitar as férias. Ah, sim, vocês devem estar curiosos para saber o que eu vou fazer na férias né? Bem, depois de menos 15 em Varsóvia, menos 10 em Moscou, e menos alguma coisa todo dia aqui em Otsu, resolvi que vou deixar o frio de lado. Em fevereiro vou para okinawa, a ilha "tropical" dos japoneses. Mas isso não é tudo. Afinal eu mereço um pouco mais. Em Março vou para as Filipinas. Vou colocar uma rede em uma daquelas ilhas do pacífico e esperar a hora de voltar ao Brasil...

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

A casa já não é mais branca


Boas. Como disse ontem, peguei meu pacote de amendoim, sentei no sofá e assisti a festa do Hussein. Várias coisas chamaram-me a atenção nessa posse. Primeiro que americano não chama posse de posse, chama de "inauguration" é, a inauguração de um mandato. Pode parecer bobo, mas por vezes as palavras nos mostram o rationale, a lógica de uma cultura. No Brasil ainda existe a cultura de se apossar do que é público para fins privados. É isso que os políticos brasileiros mais sabem fazer. Por isso acho a nossa nomenclatura perfeita, eles tomam posse mesmo (infelizmente). Lá não, o sujeito não toma posse de nada, um período é inaugurado. É por isso também que a posse dos presidentes americanos é tão cheia de ritos e tradições. Porque a posse é do presidente, não do Obama. Ele não pode fazer o que quiser, porque a presidência é maior do que ele. É claro que ele pode escolher detalhes aqui e acolá, quem canta, quem ora, o menu do almoço, mas há uma estrutura que se mantém inatacta, uma tradição que lembra a todos que o poder não é algo que se deva personalizar.
No Brasil é uma festa né? cada um entra e faz o que quer. Porque eles acham que a posse é deles, a política brasileira ainda tem muita daquela coisa caipira, do coronel, da pessoa. Me chamou a atenção por exemplo que os discursos oficiais da posse do Hussein falavam não da posse do Obama, mas da posse do quadragésimo quarto presidente, Obama. Sacaram a diferença? De novo, enfatiza-se o fato de que a presidência é maior do que o presidente. Alguém sabe quantos presidentes o Brasil teve? Não, mas a gente sabe que os E. U. A tiveram 44...
Sabe, fico triste quando vejo como no Brasil essas coisas são desvalorizadas. A logomarca do governo por exemplo muda a cada novo presidente. Agora por exemplo na logomarca do governo o BRASIL é pintado com um vermelho que chama a atenção, vermelho que não está em nenhum símbolo nacional, mas é a cor do partido do presidente, então...
No GDF é a mesma coisa. Ora as coisas são verdes, ora, vermelhas, ora azuis... Lembro-me de um mandato do Roriz em que até as lixeiras foram pintadas. É a falta total de respeito pela coisa pública, pelos símbolos, tudo vira propriedade privada do novo comandante, é o coronel mandando pintar a fazenda com as cores que ele gosta, e somos nós o gado que nem ruminar rumina.
Na posse de Hussein, lá estavam todos os ex-presidentes vivos, lado a lado, adversários políticos mas que sabem que, como ex-presidentes, não podem mais fazer política partidária. Aí olho para o meu país e vejo Sarney, em seu toma-lá-da-cá de sempre, querendo ser presidente do senado. Grandeza nenhuma. Só ganância e mesquinharia.
Obama leva Bush ao helicóptero. Um adeus cordial. Puxei pela memória e falei, opa, pera aí, isso no Brasil também tem, me lembro de presidente deixando o palácio de helicóptero... hum- lembrei. Era o Collor, fugindo do povo. Do sonho de Luther King até a posse de Obama, do dia em que pretos não eram servidos em restaurantes até o preto-presidente foram menos de 50 anos. Fico pensando quanto tempo vai levar para que no Brasil, alguém com a grandeza de um chefe de Estado ocupe a presidência. Se forem só 50 anos, fico feliz.
Por fim, o presidente vai pra casa. E lá, casa de presidente é casa branca, não é torto, dinda, jaburú, porque, novamente, é a casa do presidente, não do fulano ou do beltrano. Se bem que isso agora também mudou um pouco por lá. Para o bem de todos, a casa lá já não é mais branca.

PS 1: A BBC só se referia ao Obama como primeiro presidente afro-americano. Acho essa coisa politicamente correta uma besteira. E ainda tem gente querendo trazer isso para o Brasil. Quer dizer que americano mesmo são só os brancos, os pretos são "afro"americanos? Bestagem de gringo. Americano é americano. Um é preto, outro branco, outro amarelo, outro marrom, mas é tudo americano...

PS2: Outro "plus" da posse de um presidente americano : não existe aquela faixa ridícula. A única tradição que a gente tem tinha de ser aquela faixa brega de ditador de república das bananas??

Respondendo

Cláudia: Um beijão pra você. Você não sabe, mas eu que aprendo com vocês...


Swami Abdalla - cara, não tenho a mínima idéia de quem você é, mas obrigado pelo comentário. O que você falou é verdade, e mesmo dentro das escolas públicas no DF existem grandes diferenças. Uma escola "modelo" no plano piloto é bem diferente de uma escola qualquer do Itapuã... (Itapuã de Brasília né, não a de Salvador...) Um abraço,

Um país de canalhas


Boas. Como disse ontem, na sexta feira fui a (desculpem-me eu ainda não encontrei a crase no meu teclado...) escola mais cara de Kyoto, uma das mais caras do Japão. Vamos pular o lugar comum, e não falar do prédio de seis andares, com vários elevadores é claro, onde eu me perdi, obviamente ,
(bem, eu me perder não é um parâmetro muito bom, quando cheguei da Europa, eu fiquei na dúvida por exemplo de qual era o meu apartamento e tive de verificar o número certo lá embaixo na caixinha do correio), mas enfim, as instalações da escola são melhores do que de qualquer faculdade/universidade que eu tenha visto no Brasil e também no Japão. Mas o que me chamou a atenção não foram as mais de 25 salas multimídia, ou as mais de 15 salas de reunião, o que chamou a atenção foi que, tudo que eu vi lá, eu vi também nas escolas públicas aqui.
Mas calma, eu explico. Por exemplo, na escola pública, bem como nessa super escola, cada professor tinha um laptop e uma bancada para trabalhar. É claro que na escola pública era um laptop mais humildezinho, com uma bancadinha mais feinha e uma cadeira menos confortável, na escola particular os professores tinha um mac igual ao meu, bancadas espaçosas, poltronas confortáveis, mas enfim, tinha. As salas multimídias eram muitas na escola particular, com um computador para cada aluno mais um monitor extra para cada dois alunos, na escola pública não, era um computador para cada dois alunos, mas tinha.
Eu vi na prática o que a gente já sabe há muito tempo: o problema no Brasil é desigualdade. Não dá para comparar escolas públicas com privadas, como não se pode comparar hospitais públicos e privados, bairros ricos e pobres e por aí vai. O Brasil é um dos campeões de desigualdade no mundo. Li um relatório do World Bank de 200o que dizia que no Brasil, para cada dólar gerado, 0,1 centavo ia para o mais pobre. No Vietnã por exemplo, eram 0,4 centavos. Isso quer dizer na prática que o Brasil teria de crescer 4 vezes mais do que o Vietnã para o pobre brasileiro no final ganhar o mesmo que o pobre vietnamita (não, o Brasil não cresce 4 vezes mais do que o Vietnã, na verdade tem uma taxa de crescimento MENOR do que a do Vietnã).
É meus amigos, vivemos, ou melhor, vocês vivem em um país canalha. O problema é que a gente se acostumou com essa canalhice. Na escola mais cara de Kyoto, não há congestionamento de carros com os pais deixando ou buscando os filhos, porque no Japão as crianças, desde os seis anos de idade, vão para a escola SOZINHAS, andando ou de ônibus/metrô. Elas andam por highways , estradas de alta velocidade, movimentadas, como na foto acima, porque todos sabem que não haverá nenhum boçal dirigindo a 150 por hora, nenhum motorista de taxi afobado ou caminhoneiro bêbado. No Brasil a minha amiga tem de proteger o blog onde posta fotos do filho pequeno, com medo da criminalidade. Se ela tá exagerando? Hum, ontem ouvi aqui pela CBN Brasília que encontraram o corpo de uma menina de seis anos, com sinais de ter sido violentada, em algum lugar do entorno. A avó que cuidava dela e de mais 18 netos pequenos, está desconsolada. Parece que um carro parou na porta quando a menina brincava e, com uma moeda, atraiu a menina para o carro. É que ela era da parte mais pobre. Do Brasil que vai frequentar escola pública, ser tratado pelo SUS e morar na boca do lixo. E a distância desse Brasil para o Brasil em que vocês vivem, acreditem, é maior do que a distância entre mim e vocês agora. Uma avó que tem de cuidar de 18 netos... é Brasil. É a canalhice a qual nos acostumamos. Quando conversava com o professor de história dessa escola, e disse a ele que no Brasil o professor ganha por hora/aula e por isso tem de dar aulas em várias escolas, ele não acreditou. "isso eu não conseguiria" ele disse. No Japão o professor trabalha de oito as seis, de segunda a sexta, na mesma escola. Parte do tempo leciona, parte do tempo corrige, planeja, atende alunos. Hora/aula é uma excrescência, um tumor de um sistema educacional doente. É uma das razões porque professores no Brasil não exigem que seus alunos escrevam. Preferem provas objetivas, raramente exigem relatórios. Os professores sabem que se fizerem isso, terão de corrigir em casa, depois das 8, 10 horas aulas do dia. Esse é um dos porquês de brasileiros não saberem escrever. É uma das razões de, apesar de 80 vagas, um concurso para juiz no Rio só consegue aprovar 4 pessoas. Hora/aula. Mais uma canalhice. O professor japonês diz que não aguentaria isso, a gente aguenta, porque como disse, acostumados estamos as canalhices de nosso país. E assim, pouco a pouco, vamos nós também cada dia nos tornando mais canalhas. Bom, agora vou pegar meu amendoim e assitir a posse do Obama. Amanhã eu conto o que achei. Beijos, canalhas!


Respondendo:

Kobelus: heheh, essa do cobertor é velha.

Elienai. Aqui no Japão a caixinah do leite, bem como aquelas bandeijas de frios, coisa e tal, a gente devolve no supermercado. Qualquer supermercado. No caso do leite ainda tem de lavar a caixinha e cortar com uma tesoura, deixando a caixinha como uma folha. Garrafas pet também vão para um lugar especial, mas em todo lugar tem o lixo de jogar a garrafa pet. Vidros, baterias e afins também têm um dia especial de coleta. E olha que aqui em Otsu o Lixo nem é tão complicado assim!

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Sobre lojas e vendedores




Boas. Acabei de voltar do supermercado, e tenho a certeza de que vou sentir falta dos supermercados quando voltar ao Brasil. Quer dizer, não do supermercado em si, mas da gentileza dos caixas de supermercados, e de vendedores em geral, no Japão. Quando estive na Polônia agora no fim do ano, já senti um pouco na pele como são as coisas em um país normal. A Monika queria comprar uma cafeteira para o pai, foi até uma loja, escolheu o modelo, mas a loja só tinha o modelo no mostruário, não no estoque. Bem, isso aqui no Japão jamais aconteceria, e se acontecesse o vendedor pediria mil desculpas pela falha da loja, coisa e tal. Como já era dia 23 de dezembro o que a vendedora da loja disse a Monika foi "deveria ter feito as compras de natal mais cedo!" huahuahau, banho de realidade ocidental! No Brasil não seria muito diferente, talvez a vendedora dissesse "deveria ter feito as compras mais cedo BEM!" Outra coisa, que eu já tinha até me esquecido, é o negócio do troco. Aqui não existe a frase "não tenho troco" ou "não tem uma nota menor não??" com aquela cara azeda. Sempre tem troco. O caixa já cospe as moedas automaticamente, e a vendedora só se ocupa com as notas. Você pode pagar algo que custa 100 com uma nota de 10,000 não tem cara feia, tem troco e sempre a infalível frase "arigatô gozaimashita."
Nas lojas, não tem caixa e vendedor. Todo mundo é tudo. Assim os vendedores ficam arrumando as coisas pela loja, e tão logo você vá ao caixa vazio, alguém corre para o caixa. Se outro cliente se aproxima, outro vendedor abre outro caixa. As filas são raras. Só mesmo em fim de ano, quando o volume de clientes é muito grande.
Mas esse fim de semana eu aproveitei mesmo foi para andar por aí. Tem uma montanha aqui perto de casa, e me disseram que lá no topo havia um templo. Sem mas nada para fazer, resolvi verificar. Uns 5 kilômetros daqui andando, mas a subida era bem íngrime... Quando cheguei lá, aquelas cenas de filme, o templo tava lá, com todo o complexo e muito neve não derretida, mas não havia quase ninguém. Era só eu, andando por aqui e por ali, e essa foto eu tirei lá aí de cima eu tirei lá. Na sexta feira eu fui também em uma escola particular em Kyoto, aliás a escola mais cara de Kyoto, mas sobre isso eu falo amanhã... Besos, David

Respondendo:

Elienai
É verdade sim que aqui o pessoal é mais ecológico. Isto é, tenta ser né. A divisão de lixo é um drama, com mais de seis tipos diferentes de lixo (Há cidades com mais de 20 tipos) e coisa e tal, mas a gente não pode se esquecer que os japas são um dos maiores compradores de madeira ilegal, além de serem também um dos maiores responsáveis por pesca ilegal no planeta. Mas eu vi a tampa do meu sabão em pó por exemplo, e a empresa tem uma eco campanha como você pode ver. No quadrado verde tá escrito "vamos pensar sobre o CO2," e no azul "vamos pensar sobre a água" com a descrição de projetos apoiados pela empresa nessas duas áreas. E para finalizar, não era preguiça não, é que foi fim de semana né! Ah, e eu fui barrado no seu blog, o das histórias do Caio, disse que era só para convidados! Ultraje!

Kobelus: É, só que cobertor de pobre cobre a cabeça descobre os pés! Veja lá querer cobrir dois né!

Karine: O Brasil pode continuar o mesmo, mas Karine, quanta diferença!

Valero: Well, obrigado, mas como você mesma pode observar para as placas nem precisa de inspiração, elas falam por si mesmas!